Gostaria de retornar ao assunto da Música Evangélica no Terceiro Milênio. Sabemos que mudanças são inevitáveis. Elas ocorrem em todos os aspectos de nossas vidas, e, hodiernamente, com a rapidez feroz da era tecnológica. Nada permanece estático, tudo se renova, tudo se transforma como na natureza. A própria mensagem central do Evangelho de Cristo que proclamamos é de transformação - mudança de vida!

Como devemos encarar o que está acontecendo em nossas igrejas na área de adoração publica através da música e outros elementos constitutivos do culto cristão? Há tantas mudanças! Elas são mudanças para o melhor? Tudo depende da nossa perspectiva:


Realmente, a experiência de culto deve ser unificada através do LOUVOR, ORAÇÃO, PROCLAMAÇÃO, REVELAÇÃO, CONSAGRAÇÃO, numa seqüência lógica que leve o adorador à presença de Deus, e não como um "prefácio," denominado "Período de Louvor" (como um culto dentro do culto) à parte sem uma conexão orgânica com o restante do culto. Sei que muitas igrejas conseguem realizar um trabalho eficiente com ordens de cultos excelentes. Aquelas que tem um período liderado por jovens no início do culto todos os domingos, numa seqüência longa como um "aquecimento das emoções" (ou para alguns "louvor autêntico"), podem entrar em choque com outras gerações que não se identificam com o estilo e modo usados, e precisam de uma orientação especial do Ministro de Música. Consideremos alguns exemplos históricos.

Olhando para o passado é interessante averiguar quantas liturgias existiram para o culto cristão, quantas foram abandonadas, e quantas ainda estão sendo usadas até hoje. Pertencemos ao grupo de igrejas denominadas "não-litúrgicas," sem liturgias pré-fixadas, mas através dos tempos temos incorporado alguns elementos (bons) de outras denominações mais litúrgicas, que em alguns casos estão sendo agora substituídos por outros. Devemos lembrar que mudanças muito radicais, extremistas, tendem a desaparecer. Os reformadores Jean Calvin e Ulrich Zwingli, aos quais devemos muito na área de teologia, foram ao extremo de eliminar praticamente toda a música elaborada da tradição católica romana, por causa dos exageros e malabarismos polifônicos vocais e instrumentais. Porem as igrejas reformadas acharam com o decorrer do tempo a necessidade de voltar a usar mais música em seus cultos públicos. Lembram-se como os órgãos foram proibidos nas igrejas e até destruídos com o instrumentos indesejáveis, e considerados apropriados para uso nos lares apenas? Lembram-se como o canto coral fora eliminado na igreja de Genebra, em favor do canto exclusivo em uníssono, retornando mais tarde a ser incorporado na liturgia das igrejas reformadas? Estes exemplos históricos nos alertam para evitar a adoção de mudanças drásticas, radicais, sem apoio nas escrituras.

Sabemos que Deus é imutável - Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje, e para sempre. Nós, seres humanos, mudamos de acordo com as pressões sociais dos tempos em que vivemos. Exemplos bíblicos abundam de quantas vezes o Povo de Deus se afastou da verdadeira adoração por causa das influências do mundo em que viviam. O profeta Zacarias transmitindo a palavra do Senhor ao seu povo disse: "Quando jejuastes, e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, acaso foi mesmo PARA MIM que jejuastes? Ou quando comeis e quando bebeis, não é para vós mesmos que comeis e bebeis? (Zacarias 7.5-6)

Amós também profetiza dizendo: "Aborreço, desprezo as vossas festas, e não me deleito nas vossas assembléias solenes. Ainda que me ofertais holocaustos juntamente com as vossas ofertas de cereais, não me agradarei deles; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados. Afasta de mim o ESTRÉPIDO DOS TEUS CÂNTICOS, PORQUE NÃO OUVIREI AS MELODIAS DAS TUAS LIRAS." (Amós 5.21-23)

Miquéias, em 6.6-8, sumaria o que o Senhor realmente requer de nós: "Com que me apresentarei diante do Senhor, e me prostrarei perante o Deus excelso? Apresentar-me-ei diante dele com holocausto, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, ou de miríades de ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto das minhas entranhas pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor requer de ti, senão que PRATIQUES A JUSTIÇA, E AMES A BENEVOLÊNCIA, E ANDES HUMILDEMENTE COM O TEU DEUS?" Então, nossa primeira pergunta deve ser PARA QUEM estamos fazendo o que fazemos em nossos cultos? AGRADAR A DEUS deve ser a base de uma perspectiva sólida para o culto evangélico. O COMO, de que maneira, vai variar muito dependendo dos líderes e dos adoradores de cada igreja.

O problema do terceiro milênio é que estamos por demais preocupados com o ESTILO, o FORMATO - e qual tipo de culto vai agradar mais o nosso povo crente e descrente, para que tenhamos cultos "animados" e santuários repletos. Não podemos negligenciar as necessidades de cada membro da congregação, mas não devemos alimentá-los só com sobremesas deliciosas. Eles precisam também de alimento sólido, as vezes um pouco mais difícil de ser digerido. Devemos centralizar nossos esforços em agradar a Deus primeiro com o melhor que podemos oferecer dentro das possibilidades, talentos, e estilos musicais de cada congregação, tendo a adoração genuína expressa na Bíblia e a expressão de nossa fé, teologicamente correta, como base para nossas decisões e escolhas.

Ouvimos muito ultimamente sobre os diferentes estilos de cultos cristãos: TRADICIONAL, CONTEMPORÂNEO, ou uma MISTURA de ambos, dependendo da formalidade ou informalidade, elementos litúrgicos ou improvisados; uso de instrumentos não-tradicionais; uso ou abandono de música coral, substituída por grupos vocais, ou uso de ambos; uso exclusivo de cânticos contemporâneos, abandonando os hinários tradicionais, ou combinando cânticos e hinos; uso de drama e recursos audiovisuais, vídeos, etc.

A diversidade impera, mas a pergunta é sempre a mesma - para quem? Se honestamente respondemos a esta pergunta e colocamos na perspectiva correta os elementos essenciais do culto cristão, se ensinamos aos adoradores o que é realmente adorar e louvar a Deus - os meios podem ser diferentes, mas o resultado será positivo: a exaltação de Deus e a salvação de pessoas. E' importante ressaltar que, em geral, as várias liturgias e formas de culto não tem sido totalmente abandonadas e substituídas. Cada denominação tem experimentado mudanças em doses diferentes, e muitos cultos tradicionais continuam sendo realizados dominicalmente sem interrupção na face da terra. Ao mesmo tempo muitos grupos evangélicos tem adotado um formato revolucionário, quebrando todas as tradições do passado.

De novo a pergunta: Para QUEM estamos fazendo tudo isso? Será que o problema desta virada de milênio reside apenas no ESTILO dos cultos? Que tal focalizar mais no conteúdo - está tudo calcado nas Escrituras? O que realizamos em nossas igrejas responde claramente à pergunta - QUEM é que estamos tentando agradar: a Deus ou aos Homens? Fomos chamados para um ministério de adoração ou entretenimento? Para onde vamos? Depende de todos nós - levitas. O futuro será melhor se mantivermos nossos olhos fixos nos ensinamentos de Deus, testando as novidades à luz de preceitos bíblicos, aprendendo com as experiências do passado, entendendo as necessidades do presente, afirmando através do nosso ministério musical as verdades bíblicas e apresentando as expressões mais puras e excelentes do nosso louvor ao Supremo Deus. Que Deus nos ajude!

 

Dr. Isidoro Lessa de Paula

21 de maio de 2000

Winter Park , FL USA

 

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